O que é a Escrita Criativa?

Certo dia, numa dinâmica de grupo, alguém pediu que nos descrevêssemos em poucas palavras. Fui o primeiro a terminar e o meu texto começava com uma frase que ainda hoje uso, com orgulho. “Sou um português de Goa, nascido em Moçambique.”

Estavam ali os três continentes que me forjaram e que moldaram a história da minha família. África, onde nasci; Europa, onde nasceu o meu irmão; Ásia, onde nasceram os meus pais. Li o texto em voz alta e ouviu-se na sala um estranho comentário: tens muito jeito para a escrita criativa! Quando mo disseram, eu ainda não sabia o que era a escrita criativa.

Li o texto em voz alta e ouviu-se na sala um estranho comentário: tens muito jeito para a escrita criativa! Quando mo disseram, eu ainda não sabia o que era a escrita criativa.

Na realidade, ainda hoje não o sei muito bem. Ou melhor, sei que cada qual tem o seu conceito de escrita criativa.Para uns, é a arte de escrever coisas diferentes. Criativas. Que mais ninguém escreveria. Para outros, é a capacidade de não escrevermos dois textos iguais, impedindo que a monotonia se instale na nossa forma de escrever. Há também quem ache que é um mero equivalente à escrita literária por oposição à escrita técnica.

Eu chamo “escrita criativa” ao ato de exercitar a redação. É brincarmos com as palavras para melhorarmos a capacidade de as usar. O termo brincar está aqui aplicado num sentido muito preciso. Quero dizer que a escrita criativa implica jogos de palavras com vista à aquisição – divertida, produtiva e esforçada – de técnicas de escrita, da mesma forma como os alongamentos nos preparam melhor para uma corrida.

Costumo dizer que são cinco as vantagens desses alongamentos de escrita:

  • removemos dos nossos textos as palavras mais gastas pelo uso;
  • damos mais vida aos escritos, com novas palavras e abordagens;
  • vencemos a tão conhecida angústia do “papel em branco”;
  • criamos redações mais agradáveis de ler e divertimo-nos a escrever.

Quando comecei a dar cursos de escrita criativa, percebi que o maior medo dos participantes era deformarem a sua forma de escrever devido aos hábitos diários, sobretudo os profissionais. É sabido que os hábitos de fala e escrita estão muito associados às rotinas – o que lemos, os programas que vemos, os noticiários, os relatórios do trabalho, etc. Até as conversas que mantemos e as que ouvimos pelo canto da orelha nos influenciam.

“Quero aprender a ser criativo”, era outra das coisas que me pediam.
Se para o primeiro caso eu tinha solução (sim, a escrita criativa combate essa deformação trazida pelas rotinas), para o segundo nunca a tive.Como a honestidade deve estar acima de tudo para quem vende um produto, eu digo sempre que a criatividade não se ensina. Aquilo que podemos e devemos aprender são as técnicas e vivências que nos permitem exercitar as partes do cérebro de onde a criatividade brota.

Neste texto, trago uma velha ideia explorada por um dos autores que eu cito nos meus cursos de escrita, Gary Provost. Diz-nos este escritor e professor norte-americano que é possível melhorar a escrita quando não estamos a escrever. À primeira vista, a ideia parece disparatada. Vista com calma, é brilhante.

É certo que nós melhoramos a escrita quando estamos a escrever. Tal como só pode melhorar os tempos de corrida aquele que corre frequentemente. Mas, da mesma forma como é possível melhorar a capacidade de corrida não estando a correr (bons alongamentos, melhor alimentação, descanso adequado, etc), também é possível partir para a escrita com uma boa base de trabalho prévio. Assim, aqui ficam algumas das minhas sugestões para esse trabalho prévio.

Ler muito

Se é verdade que aprendemos a falar ouvindo os outros (é assim com os bebés), também é verdade que aprendemos a escrever lendo. Ler é uma excelente maneira de percebermos a mecânica da língua, ganharmos vocabulário e adquirirmos memória visual da forma escrita das palavras.

Consultar livros de referência

Nada nos ajuda mais na escrita do que obras técnicas: dicionário, prontuário, gramática, enciclopédia, dicionários de verbos ou de sinónimos. Quem os consulta (em papel ou online), dará menos erros.

Fazer cursos de escrita

Claro que eu tinha de recomendar isto. Um curso destes não implica necessariamente ter aulas. Há belos cursos em livro. Claro que os livros não corrigem os nossos exercícios, mas não são de desprezar.

Ouvir conversas alheias

Queremos conhecer os temas da moda? Saber como falam certos grupos sociais (jovens, idosos, empregados de mesa…)? Apreender os modismos de linguagem? Então apurem o ouvido quando estiverem no espaço público. As conversas alheias ajudam a escrever artigos de opinião, criar personagens, entre outras utilidades.

Tirar notas

Temos um texto para escrever, mas só precisamos de o entregar para a próxima semana. Que tal ir registando num caderno ou no telemóvel as ideias que nos vão passando pela cabeça? Assim, quando nos sentarmos para trabalhar a sério, já não começamos do zero.

Espero que estas notas tenham sido úteis no vosso caminho para uma escrita mais criativa.

Artigo de Paulo Colaço, publicado na Revista Descendências a 1 de março de 2021.

Novo curso online, a começar a 7 de junho de 2021.

  • 5h de formação
  • Segundas-feiras às 21h00
  • Zoom e Google Classroom

Publicado por Paulo Colaço

Gosto de me considerar um filho da diáspora. Três continentes fizeram de mim quem sou: um português de Goa, nascido em Moçambique. Sempre achei que a linha reta é a distância mais enfadonha entre dois pontos: é por isso que o meu percurso está cheio de excitantes reviravoltas. Comecei no Direito e estou hoje na Comunicação. Pelo meio encontrei o jornalismo, a rádio, a assessoria autárquica e a direção técnica de uma agência criativa. A minha atividade principal é a assessoria política, parlamentar e de comunicação. Sou também formador, copywriter e ensino xadrez. Reputado pantagruélico, para mim a palavra «como» é apenas uma forma verbal. Viajo vorazmente com o firme propósito de provar que Lisboa é mesmo a cidade mais bonita do mundo!

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